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Companhias teatrais apostam
cada vez mais em peças sem roteiro ou textos decorados, onde
quem manda é o público
Os mesmos
atores, o mesmo nome, a mesma idéia — mas nunca o mesmo
espetáculo. Assim é o chamado teatro do improviso, ou
game-show, um modelo teatral que quebra a estrutura
dramática convencional ao colocar o público na função mais
importante da peça: a de diretor. Derivado do
teatro-esporte, técnica desenvolvida pelo dramaturgo e
diretor Keith Johnstone no final dos anos 60, cada
espetáculo é, literalmente, uma partida. Divididos em dois
times, os atores competem usando apenas a improvisação
durante dois tempos, com 45 minutos de duração cada. Cabe à
platéia decidir quais situações serão interpretadas e
escolher o time que se saiu melhor em cada prova.
Graças a ferramentas como o YouTube, Orkut e Twitter, além
do programa televisivo
Whose line is it anyway?, sucesso nos Estados Unidos
e Inglaterra, as representações improvisadas voltaram aos
palcos. Em Brasília, o teatro esporte começou em um bar, com
os atores Edson Duavy e Fernando Booyou realizando cenas
sugeridas pelos clientes. A ambientação do botequim foi
adaptada ao teatro, dando origem ao espetáculo
Qual o seu pedido?,
representado pela companhia Anônimos da Silva. Além de Edson
e Fernando, Daniel Villas Boas, Lucas Moll, Saulo Pinheiro e
Leônidas Fontes – protagonista do vídeo
O herói Leônidas Fontes,
com mais de 400 mil visualizações no YouTube – integram o
Anônimos.
A distância do eixo Rio-São Paulo ajudou o grupo a criar um
estilo próprio. “Começamos a inventar coisas diferentes,
mais focadas na cultura pop”, explica Duavy. Para ele, o
sucesso das peças deve-se à identificação imediata do
público com os temas abordados. “É um teatro para ouvir as
pessoas. O público se sente especial”, acredita.
Elemento-chave para o sucesso do espetáculo, o entrosamento
entre os atores é essencial na escolha do grupo. “Ás vezes,
um quer dar uma ideia e outro quer dar outra, mas não bate.
A gente treina bastante para ter esse pensamento conjunto”,
diz Daniel Villas Boas. “É o que a gente chama de jogar
junto”, completa Lucas Moll, provando que o entendimento não
fica restrito aos palcos.
O modelo dos espetáculos não varia, mas as companhias
procuram modos de se destacarem uma das outras. O sucesso
dos mais de 70 vídeos disponibilizados no YouTube do
espetáculo “Os Improváveis”, da companhia Barbixas de Humor,
renderam ao grupo um quadro no programa Quinta Categoria, da
MTV. Já o grupo Zenas Emprovisadas (ZÉ) aposta em nomes
famosos para chamar a atenção do público, como Marcelo Adnet
e Fernando Caruso, conhecido por suas participações nos
programas globais Zorra
Total e Os Normais.
A união da linguagem do palhaço com o ambiente de uma
partida de futebol foi a alternativa escolhida pelo grupo
paulista Jogando no Quintal para incrementar o jogo de
improvisação. "Nos outros espetáculos, você acaba vendo só a
virtuose da improvisação em si”, justifica César Gouvêa, um
dos criadores da companhia. “O palhaço acaba sendo um
diferencial”. Para César, integrante do Doutores da Alegria
há seis anos e palhaço há dez, a volta de peças baseadas na
improvisação se deve a uma necessidade do próprio público.
“As pessoas precisavam de uma coisa nova, de um teatro vivo,
onde você vê as cenas sendo construídas na hora e a
fragilidade sendo muito evidente”, acredita. “O público quer
entrar dentro da peça e do ator, virar cúmplice”.
Com mais de 12
anos de experiência na técnica batizada de clown pessoal (ou
palhaço pessoal), o artista e professor João Porto explica
que o gênero escolhido pelo Jogando no Quintal também se
caracteriza pelo uso da improvisação — que, ao contrário do
que prega o senso comum, exige treinamento. “O ator
desenvolve suas habilidades”, diz. “O que ele mostra não é
improvisado, é altamente dominado. Não pode ser solto”. Para
João, o mais importante é entender a diferença entre o
teatro improvisado, onde os atores não possuem técnica ou
conhecimentos cênicos e, por isso, não sabem o que vão
fazer, e o teatro do improviso, que “é aquele em que o
artista trabalha bastante, domina as cenas, o conteúdo e só
improvisa os momentos dessa composição”.
Gláucia
Cristina
Colaboradora

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